Archive for junho \30\UTC 2006

identidade

Um quê de força que me transforma em outras que não sou eu.
Um quê de luz que faz de mim sol a aquecer todos os invernos.
Um quê de discreta suspeita...
Sou várias, sou nada, sou ninguém.
Até despertar de novo.
Sou tudo outra vez.
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amenizando

Algumas coisas a gente simplesmente não tem como mudar, ou até tem, mas não na velocidade em que gostaria, ou com a dedicação que deveria, ou da forma que seria mais agradável fazer. Algumas coisas a gente tem que viver uma, duas, três, vinte vezes até aprender. E se não aprende vai morrer repetindo, porque a vida, meu bem, parece ser mesmo esse joão-bobo que não dá sossego até que a gente entenda direitinho a lição. Algumas coisas que a gente não aprendeu, voltam ainda maiores, como que testando nossa capacidade de resolver o que tem que ser resolvido e de passar para a próxima fase, exatamente como acontecia quando jogávamos vídeo-game e não sossegávamos enquanto o vilão não aparecia morto e esturricado ou enquanto a bandeirinha de ‘Congratulations’ não tremulava na tela. Algumas coisas a gente pensa que aprendeu e se atreve até a ensinar aos outros. E porque pensa que aprendeu, a gente acha que não precisa mais ficar atento, de rabo de olho espiando, de sobreaviso, alerta ao perigo de cometer o mesmo erro. Fatal! Acaba descobrindo que não aprendeu nada, porque tropeçou de novo naquela mesma pedra, naquele mesmo lugar. Algumas coisas a gente aprende, mas aprende errado e segue teimando pela vida como se fosse certo. E briga com aqueles que não concordam, repele aqueles que dão conselhos (ok, conselhos servem mesmo pra quê?) e se fecha para a possibilidade de realmente aprender como deveria. Já as coisas que a gente aprende como tem que aprender, essas sim, ficam em nós como uma memória viva, a todo momento cutucando nossa sanidade para que continuemos acertando. E são essas coisas que eu sei que estão guardadas em algum lugar de mim, só não me lembro exatamente onde…

partilha

Um baú que a gente mantém empoeirado em algum canto da casa. Fechado, de preferência, para que de lá não saltem as lembranças que exaustivamente tentamos transformar em esquecimento. Fica recostado no tempo, à espera de um sumiço espontâneo que nunca acontece. É onde guardamos o que passou, mas que por algum motivo não se foi de todo. Resquícios de uma parte da nossa história que se arrasta pelos dias. Pequenos retalhos que foram se costurando à trama da vida, sem que notássemos. Destroços de nós mesmos, do que fomos, do que já não sabemos ser. Um baú triste de sabor amargo e de uma aspereza que nos fere silenciosamente. Basta que se abra uma fresta, que um minúsculo raio de sol aqueça o ar de dentro… Pronto, a gente se depara com a necessidade urgente de desfazer os laços com os dias de ontem que ainda nos amarram. É preciso mudar os móveis de lugar, colocar o lixo todo na rua. Mas o baú pesa demais. Impossível tirá-lo dali com a força dos nossos braços, tão cansados. É preciso que venha alguém forte. Alguém que não desista se, ao puxá-lo, der de cara com uma surpresa desagradável. Alguém que tenha coragem de remexer com a gente nos estilhaços dolorosos de algo que se quebrou há tempos. Alguém que aceite, mesmo sem entender, que o passado até hoje nos machuca. Ainda que isso não faça qualquer sentido…