soltando os pesos do balão

Não vou chorar a falta de um amor. Não vou me debruçar sobre o passado para desenhá-lo mais bonito do que realmente foi. Não vou lamentar estar sozinha nessa noite fria de sábado. Não vou tentar me contentar com menos do que mereço. Não vou tentar encaixar qualquer pessoa num lugar que está reservado para o homem que Deus, o Universo e os Anjos prepararam pra mim.

Não vou correr atrás de seu ninguém. Nem das tais borboletas. Não vou implorar atenção, nem em pensamento. Não vou tentar alternativas, facilitar encontros, provocar situações, ter iniciativa, buscar atalhos, pedir ajuda. Não vou mais insistir no que não serve.

Tô jogando fora o modelo, o padrão, o jeito antigo, a forma equivocada, a pressa, a agonia, a ansiedade, o atropelo, as palavras ditas na hora errada, as atitudes precipitadas, as conclusões ou românticas demais ou absurdamente críticas.

Tô abrindo mão da busca, da luta, da dificuldade, dos encontros tortos, dos discursos cansativos, das atitudes infantis, das reações imaturas, das decepções, dos tropeços nas mesmas e tão conhecidas pedras.

Tô me libertando de todo o ranço, de todos os vícios, de toda a fantasia que embaça os olhos, de toda a ingenuidade que machuca o peito, de toda a culpa que me leva sempre pros mesmos labirintos.

Tô chutando o balde, chacoalhando as lixeiras, esvaziando as gavetas, descartando o que não tem utilidade, entregando pra Deus o destino e o que mais esteja por vir. Cansei de tentar. Cansei de procurar. Cansei de achar que era e descobrir que nunca foi. Cansei de me arrumar para quem não me enxerga. Cansei de me expor para quem não me compreende. Cansei de me entregar para quem não faz por merecer. Cansei desse vai e vem que nunca de fato VAI.

Cansei dessa espera, dessa contagem regressiva, dessa tolice de achar que esse sim é ‘o cara’. Cansei de me enganar, de tentar me encaixar no espaço que o outro deixou pra mim, sempre tão restrito, tão insuficiente para a minha grandeza. Cansei de colocar meu coração na bandeja e oferecê-lo para degustação de qualquer um. Cansei de interpretar um papel para o qual não tenho o menor talento, a menor vocação.

Cansei de ser boazinha demais com o outro e ser mazinha demais comigo. Cansei de me preocupar se o outro, por que o outro, talvez o outro, quem sabe o outro. Cansei de olhar pra fora e ver tanta coisa feia. Cansei de olhar pra fora. Cansei de me deixar de lado, pensando que isso tudo que eu sou só vai ganhar sentido quando houver outra mão segurando a minha. Cansei de achar que minha mão precisa de outra. Cansei de acreditar em conto de fada, em mocinho, bandido, princesa, bruxa e maçã envenenada.

Eu quero a vida real. A vida que nos esfola e nos acarinha todos os dias. A vida que é pra poucos, que é pros fortes, pros corajosos, pros que são mais do que parecem ser. Eu quero o todo. O copo cheio. Eu, inteira. Transbordando de mim. A felicidade tendo que se ajeitar nas minhas fronteiras para caber.

Eu quero o que é simples, mas não é sem graça, nem sem valor, muito menos sem emoção. Eu quero o que é belo, mas que não se alimenta só da beleza. Eu quero também o conteúdo, o verbo, o verso, a prosa, a poesia. Eu quero a doçura de um encontro despretensioso, que eu nunca sonhei que pudesse acontecer. Eu quero a sorte de me perceber pisando em nuvens. Eu quero o sopro do vento trazendo as novidades e esvoaçando as cortinas da minha paz.

Eu quero esse embaraço no primeiro encontro, esse não saber o que fazer por alguns instantes, essa coisa de olhar e desviar o olhar durante um sorriso. Eu quero um carinho gratuito, espontâneo, autêntico. Quero a presença de quem possa vir trazendo tudo de si, não somente o que é mais bonito de se mostrar. Quero o privilégio de ser tão eu, que o outro possa ser tão ele quando nos encontrarmos, e assim, nós seremos tão nós.

Quero aquela certeza que se constrói no correr dos dias, com os pés enterrados no chão enquanto o coração sobrevoa o infinito. Quero um ombro, um colo, um jeito de me compreender que faça parecer bonito acreditar em tudo isso. Quero. Quero. Quero. Eu sei. E o que eu não quero, sei ainda mais.

Que a vida, com todo seu poder de fazer acontecer, se encarregue de cuidar de tudo aquilo que hoje eu estou – humildemente – reconhecendo não ter a menor capacidade de fazê-lo…

Amém!

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One response to this post.

  1. Prezada Simone,

    O que pode o amor realizar se o coração que o dá a vida estiver petrificado?

    Seria como um corpo vivo dentro de um túmulo de concreto sem ver a luz do dia e, portanto, impossibilitado de dar um passo sequer.

    Por natureza foi nos dado um coração para sentir, sonhar, amar e até voar em busca das coisas do alto.

    Estou convencido de que a malandragem, isto é, falta de transparência, e demais maleficências que foram rotuladas como virtudes num mundo cego, é o que endurecem nossos corações tornando-nos céticos para a busca do saber amar.

    Analogamente, somos como balões presos ao chão. É preciso cortar as cordas dos pesos que nos prende aqui: a vaidade, a inveja, a prepotência, a presunção… Para podermos subir e estarmos mais pertos do céu, a fim de que tenhamos uma visão mais ampla sobre a Vida.

    Abraços.

    Responder

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